O projeto
Neste projeto foram inventariados 634 documentos de naturezas diversas. Entre eles, identificam-se bilhetes, telegramas e correspondências enviadas e recebidas por autoridades municipais, estaduais e nacionais, versando sobre temas variados, como questões políticas, solicitações de obras públicas, bem como assuntos de caráter pessoal e familiar. O acervo inclui ainda recortes de jornais e de diários oficiais antigos, que tratam do Porto da Barra de Itapemirim, da Estrada de Ferro Itapemirim, de projetos relacionados ao aeroporto e ao uso de hidroaviões, além de matérias vinculadas à atuação do coronel José Marques.
Somam-se a esse conjunto contratos e recibos de compra e venda de trapiches, terrenos, casas, lanchas e embarcações diversas; plantas de loteamentos localizados em diferentes áreas da cidade; panfletos eleitorais; rascunhos e anotações sobre a história de Itapemirim; bem como recortes de imprensa relativos ao processo de tombamento dos patrimônios históricos do Porto da Barra de Itapemirim, entre outros documentos.
As pastas disponibilizadas por Ivilisi Soares, guardiã da memória e responsável pela preservação do acervo documental da família, não apresentavam uma ordenação prévia. Tal característica é recorrente nos arquivos privados, cuja constituição obedece menos a critérios técnicos arquivísticos e mais a lógicas afetivas, práticas familiares e usos cotidianos do documento. Como observa Philippe Artières[1] (1998), esses arquivos são frequentemente organizados segundo sentidos atribuídos pelos próprios sujeitos, funcionando como formas de autobiografia fragmentária e de construção de memória.
Nesse contexto, encontravam-se, em um mesmo conjunto documental, contratos e recibos do século XIX ao lado de recortes de jornais do século XXI; documentos relativos à firma Soares & Irmão misturavam-se a certidões de nascimento, páginas de jornais que noticiavam o uso de hidroaviões, recibos de pagamento de impostos e outros registros de naturezas diversas. A atuação de Ivilisi Soares aproxima-se, assim, da figura do guardião do arquivo privado, cuja função, conforme assinala Arlette Farge[2] (2009), não é inicialmente a organização racional do acervo, mas a sua preservação como vestígio de experiências, trajetórias e vínculos sociais.
Do ponto de vista arquivístico, como destaca Bellotto[3] (2006), arquivos dessa natureza exigem do pesquisador um trabalho posterior de classificação, ordenação e descrição, respeitando-se, tanto quanto possível, a proveniência e a organicidade do conjunto. Diante desse quadro, o trabalho desenvolvido não se limitou à digitalização dos documentos, mas implicou igualmente a construção de critérios de organização capazes de tornar o acervo inteligível e passível de uso historiográfico, sem descaracterizar sua origem como arquivo privado e familiar.
Os trabalhos com o acervo tiveram início em julho de 2024. Antes mesmo do manuseio sistemático dos documentos, promoveu-se um evento público de caráter acadêmico, extensionista e patrimonial, destinado a marcar a abertura oficial do projeto e a apresentar seus objetivos, métodos e relevância histórica. O encontro reuniu membros do Instituto Histórico e Geográfico de Itapemirim e Marataízes (IHGIM) e do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (IHGES), configurando-se como um espaço de diálogo entre pesquisadores, instituições de memória e a comunidade local. Nessa ocasião, discutiu-se a importância do Porto da Barra de Itapemirim para a história capixaba, bem como a necessidade de preservação, valorização e difusão de seu patrimônio documental e histórico.

